18/03/2015

Mario Solinas, a mais esperada premiação internacional de Azeites Extra Virgens

No início desse mês foi anunciado o mais esperado resultado dos concursos internacionais de azeite: "MARIO SOLINAS QUALITY AWARDS".  Os principais produtores mundiais, com exceção da Turquia, competiram com distintas quantidades de amostras, Grécia (4), Israel (1),  Itália (1), Marrocos (2),  Portugal (34), Espanha (64) e Tunísia (5), totalizando 101 azeites participantes.

Neste ano agrícola difícil para todos, a Itália, país tradicional na produção da qualidade, teve sua colheita duramente atingida, assunto de artigo postado em novembro de 2014 nesse blog (http://estilogourmetazeite.blogspot.com.es/2014_11_01_archive.html), e foi representado por apenas uma amostra. Os espanhóis e os portugueses, países que igualmente avançam com estudos, pesquisas e educação sensorial, reinaram absolutos entre todos os finalistas desse ano.


A regra do concurso é clara e simples, extra virgens podem ser inscritos por produtores individuais, cooperativas, associações e envasadores em qualquer país produtor. Há exigências quanto ao mínimo produzido e o tanque checado por auditores é lacrado e assim permanece até o dia do anúncio do resultado, quando então é autorizado o deslacre e o produtor premiado tem o direito de engarrafar o azeite daquele tanque, anunciando o prêmio no rótulo com uma logo especial do Conselho especialmente para este propósito.  Ainda de acordo com  as regras do concurso, os azeites inscritos são classificados de acordo com a intensidade média de frutado, em quatro categorias: frutado verde intenso, cuja nota deve ser maior que 6, frutado verde médio, cuja nota deve ser entre 3 e 6, frutado verde leve, cuja nota deve ser menor que 3 e, finalmente a categoria de frutado maduro.
Um painel internacional seleciona o vencedor do primeiro prêmio em cada seção de acordo com um ficha de degustação, onde são avaliados os aspectos olfativos, gustativos e sensações retronasais, bem como harmonia, complexidade e persistência.  Os jurados também propõem vencedores de segundo e terceiro prêmio e finalistas, mas não se propõe finalistas para a categoria de frutado verde leve.

Confiram os premiados:


PRIZE WINNERS OF THE FIRST EDITION 2015

First prize 

Intense green fruitiness:  Finca La Torre - Finca la Reja, S.L. Boadilla (Málaga) - Spain
Medium green fruitinessSCA Almazaras de la Subbética Carcabuey (Córdoba) - Spain
Mild green fruitiness: Casa de Santo Amaro, Heredeiros de Manuel Alberto Ferraz de Sousa Ataíde Pavão, Sucçães (Mirandela) - Portugal

 Ripe fruitinessVictor Guedes, S.A., Abrantes - Portugal



Second prize 


Intense green fruitiness:  Casas de Hualdo, S.L., Madrid - Spain
Medium green fruitinessAlmazara de Muela, S.L., Priego de Córdoba (Córdoba) - Spain
Mild green fruitiness:  Lameira de Cima, S.A., Ferreira do Alentejo - Portugal
Ripe fruitinessSociedade Agrícola Quinta da Lagoalva de Cima, LDA, Alpiarça - Portugal


Third prize 


Intense green fruitiness:  La Inmaculada Concepción, S.C.A. de Oleoestepa, La Roda de Andalucía (Sevilla) - Spain
Medium green fruitiness:  Aroden, S.A.T., Carcabuey (Córdoba) Spain
Mild green fruitiness:  Olivarera de Pedrera, S.C.A. de Oleoestepa, Pedrera (Seville) - Spain
Ripe fruitinessExplotaciones Agrícolas Páramo de Valcuevas, S.L.U., Medina de Rioseco (Valladolid) - Spain



FINALISTS 

Intense green fruitiness:


1st                      Rafael Alonso Aguilera, S.L. Oro del Desierto Tabernas (Almería) - Spain 
2nd                    Aceites Oro Bailén Galgón 99, S.L. Villanueva de la Reina (Jaén) - Spain 
3rd                     El Labrador, SAT- 8064, Fuente de Piedra (Málaga) - Spain 

Medium green fruitiness:


1st                      Sovena Portugal Consumer Goods, S.A., Azambuja - Portugal
2nd                    Cooperativa de Olivicultores de Valpaços, C.R.L., Valpaços - Portugal 
3rd                     Casa Agrícola Roboredo Madeira, S.A. CARM Almendra - Portugal 


Ripe fruitiness:


1st                     Fio da Beira Produção e Comercialização de Azeites, Lda., Reta da Esteveira 
                         - Pedrão -Portugal
2nd                   Olivarera de Casariche, S.C.A. de Oleoestepa, Casariche (Sevilla) - Spain 
3rd                    Ulysse Agro-Industries, Ben Arous Tunisia 


A cerimônia de premiação ocorrerá no dia 29 de junho de 2015 durante a Fancy Food Show na cidade Nova Iorque nos Estados Unidos.
O trabalho de aperfeiçoamento da qualidade da produção do azeite extra virgem segue firme em seu caminho e se expande em todo o mundo.  É uma cultura ancestral em transformação e vivemos esse momento único de muitas descobertas.  O Brasil segue na mesma estrada e, seguramente, nossa saúde e qualidade de vida serão beneficiadas.  Avante!






15/02/2015

Azeites Brasileiros, a Bocaina dá início a colheita

Em meio ao verão tropical do sudeste brasileiro, foi dado início, no fim de janeiro, à colheita anual das azeitonas e à produção do azeite de oliva nacional.  Até onde tenho notícia, o terroir da Serra da Bocaina foi o primeiro a colher as variedades Arbequina e Grappolo, cujos azeites apresentam interessante complexidade e evolução.

O lagar do Olivais da Bocaina


Situada a 229 km de São Paulo e 233 km do Rio de Janeiro, a 1.260 mts de altitude na Serra da Bocaina no Estado de São Paulo, a Fazenda Ronco D'Água dedica-se à olivicultura desde 2007 e foi no ano de 2011 que realizou sua primeira extração experimental com resultado muito satisfatório sensorialmente.  Em 12 hectares, com 3.500 árvores, sua produção concentra-se principalmente nas variedades Arbequina (1.680 unidades), Grappolo (880 unidades) e Koroneiki (600 unidades), estendendo suas experiências às variedades Arbosana (200 unidades), Maria da Fé (100 unidades) e Ascolana (40 unidades).  Em área sujeita à constantes chuvas de granizo no momento do crescimento e amadurecimento dos frutos, o produtor responsável, Anibal Cury, sob orientação da consultoria do engenheiro agrônomo Nilton Caetano, cobre suas árvores com uma rede protetora, adicionando uma poética imagem ao já inusitado olival subtropical da Mata Atlântica.

Proteção contra as chuvas de granizos


No ano de 2015, cuja colheita está em curso, estima-se uma produção de 3.000 kg de azeitonas, o que resultará em aproximadamente 450 litros de azeite.
Do azeite já extraído da variedade Arbequina, uma interessante característica de fruta madura, com notas de banana e maçã, sabor herbáceo, amendoado, quase doce, com leve amargo e picante em equilíbrio parece traduzir a essência do terroir.  A variedade Grappolo, em sua intensidade de fruta verde, folhas, alcachofra e tomate, sabor marcadamente amargo e verde com persistente picante tem complexidade reduzida, mas grande potencial de evolução, pois degustei-os no dia seguinte à sua extração.

As variedade Grappolo (acima) e Arbequina (abaixo)



O fato é que, a produção brasileira cresce e evolui.  Bocaina, Mantiqueira, Santana do Livramento, Cachoeiras do Sul, Caçapava do Sul, Santa Maria, Formigueiro, Lavras do Sul, entre outras regiões desenvolvem o cultivo e buscam a produção da azeitona de mesa e de azeite.  Nosso país no ano agrícola de 2013/2014 atingiu o volume total de importação de 80.000 toneladas, tornando-se um dos principais consumidores mundiais.  A medir pelo potencial de harmonização com nossa culinária, proporcionalmente à importância funcional desse ancestral alimento, a produção e o consumo crescerão na mesma medida.   

No Senac Rio, com  o apoio da Gerência de Gastronomia, estamos criando produtos educacionais para expandir esse rico conhecimento e, em sinergia com as produções gastronômicas regionais, vamos unir forças.  Aprender a consumir esse rico ingrediente em todos os processos culinários e nas finalizações é o caminho... Avancemos!

                      No restaurante do Chef Ocílio Ferraz, pesquisador da comida regional tropeira

12/01/2015

Azeites Turcos, ancestralidade e desafios!

Memecik, Ayvalik, Domat, Erkence, Gemlik, Halhali, Sari Ulak, Saurani, Kilis Yaglik, Nizip Yaglik... esses nomes tão estranhos aos nossos ouvidos são as principais variedades de azeitona do quarto maior produtor de azeites do mundo: a Turquia.
Convidado pela marca GÜVEN ASA, para conhecer esse distinto país e sua produção de azeites, deparei-me com uma enorme diversidade cultural, gastronômica e calorosa população.


O lagar da Güven Asa em Edremit

Com produção anual muito variada de 100 à 200.000 toneladas de azeite, o país possui espantoso crescimento da área de plantio, hoje com 790.000 ha de área e 92 milhões de oliveiras, buscando a segunda colocação na produção mundial.  Acompanhando esse vertiginoso crescimento que tem forte apoio governamental, o modelo industrial tecnológico de produção mais que dobrou no país nos últimos dez anos e atualmente, dos 1700 lagares mapeados, 1500 estão modernizados.

 A linha de produção dos azeites Güven Asa

País euro-asiático, que ocupa toda a península da Anatólia, no extremo ocidental da Ásia e se estende pela Trácia Oriental, no sudeste da Europa, data de mais de 8000 anos os indícios de que foi nesta região que se iniciaram os primeiros cultivos da oliveira.  Como podemos observar, a enorme ancestralidade nem sempre é sinônimo de total inserção cultural nos hábitos alimentares, visto o baixo consumo interno, na ordem de 1.5 l per capita anual.  


Há um evidente cenário em transformação, com a busca da qualidade para novos mercados, tanto internamente, onde o óleo de girassol é o maior competidor, como para as crescentes exportações.
De suas ricas variedades autóctones, há cerca de 89 tipos mapeados, sendo 10 dominantes para a produção oleícola.  1/3 do total produzido no país é destinado às conservas de mesa, sendo um importante exportador da fruta com grande diversidade sensorial.



Da megalópole Istambul à Edremit, distrito de Balikesir, às margens do mar Egeu (bacia do Mediterrâneo), foram sete intensos dias sensoriais.   Encontrar-me com as oliveiras locais foi uma emoção, vê-las cobertas de neve, uma sensação.
Com uma gastronomia baseada no uso de muitas especiarias, frutos do mar, carnes de frango e cordeiro, variados legumes, verduras, queijos e grãos, o azeite de oliva finaliza e fornece a essa diversidade, uma textura aveludada e nuances de azeitonas maduras, enriquecendo ainda em muito a experiência organoléptica.


Oliveiras locais, encontro e emoção

Fui convidado a fazer uso do azeite à minha maneira, no preparo de algum prato com características brasileiras, repetindo minhas contínuas ações experimentais empreendidas na ESTILO GOURMET e a experiência se concretizou num diálogo com dois cozinheiros otomanos, com pratos típicos locais e um creme de abóbora com camarão e salada de legumes com creme de castanhas de cajú preparados por mim.



Diálogo culinário com cozinheiros otomanos

As emoções foram proporcionais a cada novo sabor e aroma descoberto... Com um forte frio que impôs cenários cinematográficos cobertos de neve, dei mais um passo nesse fascinante percurso onde a busca pela qualidade dos extra virgens é o cerne principal.

Esse país tão ancestral, assim como os tradicionais países produtores europeus, lançou-se a novos desafios, rompendo suas tradições e está disposto a mostrar ao mundo ao que veio.  Em um território de raízes milenares e uma aptidão para as transações comerciais impregnadas no sangue desde a antiguidade, em breve nós brasileiros poderemos experimentar seus mais variados azeites, verdadeiros tesouros, que traduzem em sua essência, a arte, o amor, a paixão, a ancestralidade e sacralidade de uma terra que tem muito para nos contar.

Que venha 2015!